O Caracol de Cachecol


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Você deve lembrar da grande nevasca de 1978, quando as ruas de Belo Horizonte ficaram cobertas de neve, as pessoas cobertas de roupas e os sorvetes cobertos de calda quente. Pois foi nessa época que Anacleto, já um tanto entediado, resolveu dar de ombros - mesmo os que não tinha – e sair de casa mesmo naquele frio.

Primeiro avançou as anteninhas para fora, como quem coloca a pontinha dos pés na água do chuveiro para ver se já está na temperatura ideal para se banhar: “Caramba, cai chuva congelada!”, pensou Anacleto recolhendo apressado as antenas para dentro de casa.

Certo de que seria impossível ganhar a rua desprotegido, colocou-se a matutar uma forma de passear sem morrer de frio. Construir uma marquise? Não, o preço do concreto estava nas alturas. Instalar ar condicionado na cidade? Imagine a conta de luz? Passar as nuvens com ferro para derreter o gelo? Não conseguiria uma escada tão alta.

Quando Anacleto já estava próximo de comprar um lança-chamas, lembrou-se de tia Berenice, uma habilidosa aranha, estilista de grandes marcas em Paris. Mandou-lhe um e-mail explicando a angustia de viver dentro de casa por conta do frio. Terminou a mensagem afirmando: “Careço caminhar como cometas. Com carinho, Cleto”. É um poeta, pensara sua tia.

Uma semana depois, o correio bate em sua porta: “Encomenda da senhora Berenice Saint Laurent para o senhor Anacleto Perete”. Ele ficou extasiado. Ao abrir o pacote repleto de selos franceses, viu seu problema solucionado com o presente de sua tia: um gordo cobertor de listas amarelas, rosas e vermelhas! Como não atinou para uma solução tão simples?

No mesmo dia, protegido da nevasca, Anacleto saiu de casa enrolado em seu novo cobertor. A felicidade era tamanha que ele caminhava de olhos fechados, um sorriso no rosto e a imaginação solta, fantasiando a vida: “Como é colorido meu cachecol”. Sim, Anacleto era um poeta.

Ilustração: Melissa

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