Textos de Vitor Freire

Adelmenito


Adelmenito sabe quando não sabe das coisas. E se você permitir pensar bem sobre, vai ver formosura nisso. Cresceu assim, de menino que vai ser para jovem olha como tá sendo. O futuro ainda não tinha alinhado, porque o futuro que a gente espera não dá carona. Futuro não é trêm que se espere, dizia […]

Além de Mutum


Toda vez que demoro de vir pra casa, me dá uma sede na garganta, que nenhuma água resolve. E quando chego, nem lembro de ir na cozinha, vou me embebedar de estar quieto. Minha casa é estar quieto. Por isso que nesses tempos de vai-e-volta, corre daqui-de-lá, de trabalho de dia, e de aprender trabalhos […]

sobrevoantes


- Por quê a maior altura que conheço não coube em nenhum homem?
- É que há um limite. Passado este, não se enxerga mais homem.
Os passos caídos, há sempre quem segure os dentes para não escapar as palavras. Ele tinha segurado as palavras para não fugir os pés. Observo os meus. Tenho mais medo deles […]

Quando voltamos, voamos.


- Você prefere ter nome bonito ou saber voar?
Nome é uma pele de palavra que veste nosso corpo de existir. Voar é brincar de pega-pega com o chão, o céu e o vento. Você é aí fora de mim, dentro dos meus olhos. Prefere é um menino educado. Ter é poder guardar, mas com cuidado […]

Diálogo


- Desculpe, querida, mas esse teu corte é tão fora-de-moda. Não sei, tão folhudo.
- Querida, se eu fosse seguir a moda eu não estaria em pé hoje. Nesse mundo, me diga coisa mais fora-de-moda que uma árvore?
Foto: Ingrid Klinkby

Um binga de gente


Hoje nem a solidão foi capaz de me acompanhar. Eu nunca parei de escrever no papel, não por nenhuma pieguice ou conservadorismo. Sempre que acabo de melar o papel, um instinto me rompe: aguardo a aprovação da Tia Lêda. Olho para os lados. É inevitável. Ela não vem. Ela nunca mais veio. Era meu pavor […]

Vitor Freire

menino-homem criador brincante de palavras e imagens.