Quando voltamos, voamos.

- Você prefere ter nome bonito ou saber voar?
Nome é uma pele de palavra que veste nosso corpo de existir. Voar é brincar de pega-pega com o chão, o céu e o vento. Você é aí fora de mim, dentro dos meus olhos. Prefere é um menino educado. Ter é poder guardar, mas com cuidado pra não perder. Saber é voar com palavras. Bonito é o nome que minha mãe me chama.
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Ninguém pula olhando pra trás. Se olhar, deixa de ser pulo e vira queda. Estavam todos sentados com as mãos sujas, reconhecendo cores e texturas. Os pés estavam calçados, presos, lamentamos um com o outro. O pai podia aceitar um filho vesgo, burro ou maricas, mas ninguém podia sair de casa descalço. A mãe diz que foram anos de pé ferido, e aí criou uma ferida no coração do pai. Pelo que entendi, não tem como passar merthiolate. Pra compensar os pés, nossos joelhos viviam ralados. O mais-novo além de sujeira conseguiu um machucado na mão. Já tínhamos combinado que sangue não valia. O mais-novo nasceu para ser teimoso, porque ninguém tinha prestado atenção em ocupar esse lugar. Na casa todo mundo precisa de uma serventia, mesmo que não preste pra nada. O do-meio é engraçado. O pai acha engraçado. Eu não sei. Eu sou o mais-velho, o que não sabe. Fiquei bom em não saber. Além de não saber pra mim, sei espalhar meu não saber nos outros. O mais-novo chega feliz contando do que aprendeu novo, e depois de conversar comigo, percebe que não sabe. A serventia da mãe era ser mãe. Desistimos de ficar sentados com as mãos sujas. O do-meio saiu correndo e o seguimos. No nosso bairro, trocam crianças por caixotes. Caixotes não choram, nem fazem xixi na cama, e dá pra guardar coisas dentro. No nosso bairro, os homens ganham dinheiros colocando coisas dentro do caixote. Menos meu pai, que ganha dinheiros do governo, porque meu pai tem feridas no coração. Essa é a serventia dele. Cada vez tem menos crianças para brincar, e mais caixotes espalhados no bairro. Nós resolvemos brincar com os caixotes – e chamamos cada um pelo nome do que foi. O mais-novo, sempre teimoso, diz que correr já era sem graça, e que agora a gente tinha é que voar. Mas voar pra quê? Dessa vez eu não consegui melar ele com meu não saber. Ele insistiu. E me mostrou que tinha asas escondidas nos cabelos. E partimos. Nunca mais voltamos. Voar foi o jeito que encontrei para não saber.
Dedicado a Daniela, madrinha do novo cambalhotas.
Foto: jan von holleben



É impossível não gostar das sensações expressas em suas palavras. Sempre um encantamento…
Beijo