Quando voltamos, voamos.


Foto de jan von holleben

- Você prefere ter nome bonito ou saber voar?
Nome é uma pele de palavra que veste nosso corpo de existir. Voar é brincar de pega-pega com o chão, o céu e o vento. Você é aí fora de mim, dentro dos meus olhos. Prefere é um menino educado. Ter é poder guardar, mas com cuidado pra não perder. Saber é voar com palavras. Bonito é o nome que minha mãe me chama.
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Ninguém pula olhando pra trás. Se olhar, deixa de ser pulo e vira queda. Estavam todos sentados com as mãos sujas, reconhecendo cores e texturas. Os pés estavam calçados, presos, lamentamos um com o outro. O pai podia aceitar um filho vesgo, burro ou maricas, mas ninguém podia sair de casa descalço. A mãe diz que foram anos de pé ferido, e aí criou uma ferida no coração do pai. Pelo que entendi, não tem como passar merthiolate. Pra compensar os pés, nossos joelhos viviam ralados. O mais-novo além de sujeira conseguiu um machucado na mão. Já tínhamos combinado que sangue não valia. O mais-novo nasceu para ser teimoso, porque ninguém tinha prestado atenção em ocupar esse lugar. Na casa todo mundo precisa de uma serventia, mesmo que não preste pra nada. O do-meio é engraçado. O pai acha engraçado. Eu não sei. Eu sou o mais-velho, o que não sabe. Fiquei bom em não saber. Além de não saber pra mim, sei espalhar meu não saber nos outros. O mais-novo chega feliz contando do que aprendeu novo, e depois de conversar comigo, percebe que não sabe. A serventia da mãe era ser mãe. Desistimos de ficar sentados com as mãos sujas. O do-meio saiu correndo e o seguimos. No nosso bairro, trocam crianças por caixotes. Caixotes não choram, nem fazem xixi na cama, e dá pra guardar coisas dentro. No nosso bairro, os homens ganham dinheiros colocando coisas dentro do caixote. Menos meu pai, que ganha dinheiros do governo, porque meu pai tem feridas no coração. Essa é a serventia dele. Cada vez tem menos crianças para brincar, e mais caixotes espalhados no bairro. Nós resolvemos brincar com os caixotes – e chamamos cada um pelo nome do que foi. O mais-novo, sempre teimoso, diz que correr já era sem graça, e que agora a gente tinha é que voar.  Mas voar pra quê? Dessa vez eu não consegui melar ele com meu não saber. Ele insistiu. E me mostrou que tinha asas escondidas nos cabelos. E partimos. Nunca mais voltamos. Voar foi o jeito que encontrei para não saber.

Dedicado a Daniela, madrinha do novo cambalhotas.

Foto: jan von holleben 

Ficha criminal

Delitos e informações desse atrevimento palavreado.


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Comentários e estranhezas aproximadas

É impossível não gostar das sensações expressas em suas palavras. Sempre um encantamento…

Beijo

cambalhotando…
nossa eu até chorei…
me ensina a voar assim!?!!?

beijo estalado.

Tenho para mim, que todo pulo envolve uma queda. E quando movo minhas pernas em direção ao abismo, começo sem olhar, de tanta covardia. Despenco de olhos fechados, concentrada no vento. Ele embaraça meus cabelos, me asfixia de ar, pressiona meu corpo, moldando-o. Quase vomito de tanta vertigem, e quando ela passa percebo que em algum momento, deixei de existir. É quando começo a voar.
Lindo o seu texto, Vitor.

Seria um arranha céu, quando dele caímos e ralamos o joelho?
Voar também mela as mãos na tinta de nuvens desconhecidas, elas são os caixotes do céu, recheadas de des-saberes - invenções possíveis, subversão incabível que sustenta nosso corpo no único lugar onde somos melhor do que o outro: na fantasia.
Nunca entendi porque chamam esta ciranda de gravidade, e eu que não sou menina de desacreditar no viver prefiro pensar que é o pulmão se divertindo com as cócegas do ar celeste.
Meu sobrenome comum sempre me encontrou mais que meu nome, porque fala desta minha inclinação à nuvem: dos Santos; deve ser lá que eles vivem.
Sempre senti mais os chamados dos encontros, do que os do meu nome, este não ecoam em mim. Dias destes lendo Clara Coria entendi porque Daniela veste tão pouco minha “pele de existir”. Ela disse assim: “El segundo nombre de todos es Soledad” e é este que habito desde os mais antigos tempos de mim.
Cambalhotear sempre foi uma pele de resistir à mesmice. O encontro com as palavras deste lugar, não menos real por sua virtualidade me acompanha e o recém amadrinhamento destas nuvens povoa minha sozinhes.
Obrigada menino por tocar o que há de mais só em mim!

Com carinho

Dani

‘A pessoa é para o que nasce’ :p
Sempre achei que minhas serventia era a de pular,e no meio tento voar, com medo de tudo virar queda,não faço nem um nem outro.
Muito bonito,moço.

Deixei de ser a mais velha quando um dos meus irmãos-do-meio foi pro Acre, tirou carta de motorista e telefonou dizendo que ia casar. Mas eu ainda sou a que não sabe. Sei que tenho manias de fuga, mas nunca sei a hora certa de partir ou ficar.
Mas tem uma vaidade em mim que acha meu nome bonito.

Muito bom vcs de volta, mesmo sentindo saudade dos outros. ,~)
=*

Tudo tão gostosinho…quero uma barraca por aqui também!

adorei passar por aqui. vou ficar.
encontrei parte das minhas asas aqui.
beijo.
obrigada por escrever tão bem.

deu-me a sensação de estar a alguns anos atrás..saudade e aquele aperto por não mais brincar com meus irmãos.éramos exatamente assim..tinha até o teimoso!rs
Hoje são grandes e pulam olhando pra tras.
obrigada.

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