Além de Mutum
Toda vez que demoro de vir pra casa, me dá uma sede na garganta, que nenhuma água resolve. E quando chego, nem lembro de ir na cozinha, vou me embebedar de estar quieto. Minha casa é estar quieto. Por isso que nesses tempos de vai-e-volta, corre daqui-de-lá, de trabalho de dia, e de aprender trabalhos de noite, muitas vezes não alcanço o tempo de vir pra casa: de aquietar. Eu já não fui sozinho, gosto de lembrar, mas não vou mentir dizer que tenho saudade. Também, preciso ter mais sabedoria, porque logo depois que aprendi saudade, queria usar ela em tudo. Vivia dizendo “ai que saudade de saber das coisas”, e pensavam que eu tinha abestado as idéias. Quando aprendo uma coisa bonita nova, eu guardo para ir me abonitando dela devagar, depois de um tempo que começo a calçá-la. Minha família é a vontade que tenho de voltar pra ver mainha. Essa vontade tem irmãos, vivos e um morto. Um irmão morto é sempre o mais velho: chegou antes. E é assim, vontade, mas que fica mansa aqui. Porque o dia corre e ainda tem mais coisas pra aprender antes de amanhã. Se eu deixo juntando, morro burro. Essas coisas todas dão cansêra, mas não vou mentir dizer que estou cansado. Nessa minha morada de quietude, aproveito para ir colocando umas palavras. Quando escrevo, o corpo descansa, e deixa a cabeça cansar. Sempre gosto mais das palavras que dá pra gente escrever quieto. Quando vou no mundo é tanta coisa, que nem lembro. Por isso, em casa, prefiro escrever dessas coisas que não preciso lembrar. Mesmo que depois eu nem encontre serventia. Agora deixa eu ir que o moço do lado não gostou muito da minha casa. Ficar quieto as vezes chateia quem tá fora.



nossa! agora quero ficar quieta pra poder achar a minha casa.